domingo, 21 de agosto de 2011

Tu


Saíste, porta fora, e tudo o que ficou foram vestígios de ti.
Vestígios esses que também se foram desvanecendo, como se sem ti não conseguissem sobreviver. Como se sem ti não tivessem razão de ser.
São os passos, cada vez mais silenciosos. É como se me quisessem gritar para onde vão. E eles vão me preparando para a tua ausência, deixando-me um pouco de ti por uns minutos. Depois, como se eles soubessem que lamento a tua ausência, vão se despedindo devagarinho, num sussurro cada vez mais distante.
É nesse momento, nesse sussurro, que me preparo para o vazio –Silêncio.
Mas depois, apercebo-me do teu cheiro a flutuar por entre mim. Tento agarrar-me a mais esse pouco de ti. E aí, ele envolve-me.
 Nesse momento, se eu fechar os olhos, é quase como se aqui estivesses. E só com essa ideia da tua presença percorre em mim um arrepio. Abro os olhos – Ausência.
Percorro o quarto com os olhos. Procuro mais um pouco de ti – Vazio.
E eu quero mais. Quero te sentir mais. Quero te viver mais. Quero te amar mais.
Não te tendo, recordo-te. Sempre que não te tenho, recordo-te.
E é assim que vais vivendo comigo. Enquanto me visto, enquanto percorro as ruas – Tu vives comigo.
É ao agarrar-me ao teu pensamento que nasce em mim um sorriso constante – ele nasce no coração e vem viver para os meus lábios.
Ninguém sabe, mas esse sorriso és tu em mim.

sábado, 2 de outubro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A tua luz

A luz que te falta na tua vida, tenho-a na palma da minha mão.

No "vidro" de um copo


Dias? Meses? Anos?
Não sei. Não sei quanto tempo passamos aqui fechados.
Os meus companheiros de armário ficam ansiando por antever a claridade – é sinal de que aqueles seres estranhos estão a abrir a porta do armário, e que alguns de nós terão o privilégio de descobrir um pouco mais daquele universo exterior.
Eu não preciso dessa ansiedade. Mantenho-me sempre em posição, elegante e pacífico. Afinal, eu sou O Cristal! Obviamente que sou escolhido.
O momento da escolha é o mais emocionante. Ah, o contacto!
Um toque, quente, que envolve toda a minha estrutura superior. E assim fico por uns tempos, sentindo aquela mão mole e quente sobre mim. E também eu aqueço, e também eu me sinto a amolecer. Perco a noção do limite – mão ou copo? já não há diferença nesse momento.
Depois, tudo gira. Será do êxtase? Ou será que a mão é algum bicho do demo que me fez enlouquecer os vidros?!
Só que, ao fim de pouco tempo, tudo pára e tudo muda.
Já não há armário, já não há colegas, já não há pó.
Há todo um universo à minha volta – seres, cores, movimentos.
E eles pegam em mim e tocam-me suavemente, com os lábios.
As bolhas do líquido em despejado faz-me cócegas, e eu sinto-me com vida.
Erguem-me, triunfante, como que orgulhosos de mim.
“Olhem, quão belo é O Cristal” – decerto que é isso que eles dizem.
E cá estou eu, no mais alto do meu esplendor, com todo o universo por baixo de mim.
Até que, novamente, tudo pára.
Pousam-me, dão-me banho e limpam-me, tal criança.
Sei que o fim está perto – em breve o armário, o escuro, o pó.
Mas eu não me importo. Vou voltar, triunfante, e contar as minhas novas aventuras àqueles cristaizinhos. E todos eles me vão invejar, e todos eles se vão admirar!
Afinal, eu sou O Cristal!!