domingo, 3 de março de 2013

Rotina

Os meus gestos de hoje, a copiar os de ontem.

Todos os dias, a mesma melodia mecânica a guiar os meus passos. Ainda não os vivi, mas já sei os meus momentos de cor.
Fechos os olhos, e tento procurar vida em mim. Vivendo num plágio de mim própria, esqueço-me de sentir.
 A rotina entorpeceu-me a alma.
 Por vezes, olho para o esboço da minha vida e nada reconheço.Como se esses fossem os desejos de um outro corpo - desconhecido, distante.

Sonhos quebrados.

Por vezes, tento mudar o ritmo dos dias, devagarinho, com medo que o mundo acorde. Com essa pequena descoordenação, reaparece-me o gosto a liberdade. Sinto-o a crescer, no peito. E aí, o meu olhar já (não) é meu. O que outrora me parecia desconhecido e distante, parece-me agora tão familiar!
Guardo segredo dos meus passos fora do tempo, porque tenho medo. Medo que não me deixem compor o meu próprio ritmo. Medo de ser julgada por sonhar.  - Afinal, o mundo é para os sérios! -

Delicio-me, tal delinquente, com a minha utopia. Porque, se eu não a falar, se eu fingir que não a penso, nuunca ninguém me poderá tirá-la.

Liberdade.

E assim caminho. Ora adormecida no compasso, ora fingindo que durmo.


sábado, 29 de outubro de 2011

Ele


Aconchego-me na cama, e trago-o para perto de mim.
Como se esse simples gesto lhe pudesse mostrar o meu mundo.
Agarro, devagarinho, na sua cabeça que encosto no meu peito.
E deixo-me estar assim, ouvindo cada vez com mais intensidade o bater do seu coração.
Desejo apertá-lo com todas as minhas forças.
Como se assim fosse possível pô-lo ainda mais em mim.
Como se assim fosse possível mantê-lo longe de tudo o que o magoa.
Olho para ele.
Um outro ser, um outro mundo (meu?)
A mão dele repousa sobre mim.
Esse simples toque faz me sorrir docemente.

Ele acorda.

Olha-me.

E eu, perco-me...

Ele!...

domingo, 2 de outubro de 2011

Olhar


De cada vez que desapareces do meu olhar, sinto- te a falta. E o meu corpo, cada parte do meu corpo te lamenta, ficando sem jeito. E as minha mãos, as minhas mãos não se sabem mover como quando te tenho. E as palavras.Sinto em mim palavras a quererem falar-te. Sinto-as a empurrarem-se e acumularem-se no fundo da minha garganta. Mas eu não tenho voz. E a culpa é tua, porque te vais. De cada vez que desapareces do meu olhar, morro. – Inércia.E sempre que me foges dos olhos, apenas me resta pensar-te. E o meu corpo, dormente, a aguardar a tua presença no meu olhar.

E quando voltas, como que para  deixar o meu corpo mais ansioso de ti, apareces-me longe nos olhos. E eu consigo senti-los. Eu consigo senti-los a quererem agarrar-te, a quererem encher-se de ti.Porque é apenas quando ocupas todo o seu espaço que o meu corpo volta a viver.Porque nesse momento, meu amor, tudo é apenas tu. E tu escondes-me as paredes. E tu escondes-me as casas. E tu escondes-me o mundo.  E nesse momento, eu fico com os olhos cheios de ti.E o que eu daria, meu amor, para te ter a viver no meu olhar.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

E Quando


E quando nos sentimos ceder? Quando se sente, a pouco e pouco, partes do corpo a desistir?
E quando a força se esgotou, com o passar dos anos? Quando já não nos sentimos capaz de mais?
E quando tudo em nós passou a estar dormente do esforço? Quando tudo nos escorrega e nada fica, nada sossega?

Nesse momento, nesse ponto da vida, por favor, o que se faz?

E quando já não dá para nos levantarmos mais? Quando tudo é chão?
E quando já não dá para nos mexermos mais? Quando tudo é prisão?
E quando já não dá para tentarmos mais? Quando nada é opção?

Nesse momento, nesse ponto da vida, por favor, o que se faz?

E quando já deu o que tinha a dar?
E quando tudo se perdeu?
E quando, simplesmente, não conseguimos mais?

Aí então, por favor, que alguém me diga pois nunca ninguém me ensinou.
Nesse momento, nesse ponto da vida, como se faz?

domingo, 28 de agosto de 2011

Abraço

Foto tirada daqui.


 Abraça-me.
 Aperta-me, com força. Para que, a pouco e pouco eu me vá estilhaçando aos pedaços e assim poder entrar dentro de ti.

E quanto mais me apertas, mais eu me sinto em ti.
Pedacinhos de mim, por todo o teu corpo – nos olhos, no coração, nas mãos. 

Chega um momento em que os nossos corpos deixam de ter limite – Sou eu, em ti. És tu, em mim.
E eu quero viver assim para sempre, no teu abraço, no teu corpo.

Abraça-me.
Aperta-me, com força. Para que possa entrar por todo o teu corpo- nos olhos, no coração, nas mãos e lá adormecer, eternamente.

Abraça-me.
Aperta-me, com força. Para te poder possuir e estar em cada olhar, cada sentimento, cada gesto teu.

Abraça-me.
Aperta-me, com força. Para te poder amar mais de perto....

Abraça-me.....

Aperta-me....Com força.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Palavras


Assim que os teus olhos roçaram o meu rosto, interrogaram-me pelo meu sorriso.
Gritavas perguntas com os olhos.
Sem perceberes porquê, fechei o rosto e calei-me.
E eu sentia as perguntas pelo ar - Tu porque querias uma resposta, e eu porque não tinha uma resposta.
Foi ao acordar -  ou talvez tivesse sido durante a noite? – Foi ao ver o meu reflexo no espelho – ou talvez tivesse sido ao sentir o peito vazio?
Foi aí.
Foi aí que senti que algo faltava em mim. E eu olhei-me com muita atenção. Percorri pormenorizadamente cada canto do meu ser, mas não consegui ver o que faltava em mim, porque não conseguia sentir.
Foi como se um buraco se tivesse apoderado do meu coração. Escuro e profundo. Tão intenso, que me tapou os sentimentos.
Tentei procurá-los um pouco mais com o olhar – Nada.
E eu fiquei aflita. Como viver sem sentir? Como viver de rosto fechado, sem sorrir?
Mas a vida não perdoa. Ela não quer saber de medos, de dúvidas. Não tem tempo para isso, e puxou-me porta fora.
Arrastou-me para o dia-a-dia.  E eu, fiz os mesmos gestos de sempre. E eu, tomei os mesmos passos de sempre. E eu, passei os mesmos sítios de sempre. E eu, cruzei-me com as mesmas pessoas de sempre. E eu, vivi o mesmo de sempre.
Mas, nessa manhã, o viver tinha um sabor diferente. Corrijo. Mas, nessa manhã, o viver tinha um dissabor.
E eu, aflita. E a vida, sem respostas e sem piedade, a apressar-me para o dia.
Depois, chegaram os teus olhos. E eu, aflita.
Queria te mostrar o que faltava em mim. Mas eu tinha os sentimentos tapados, não conseguia.
Foi assim que te deixei sem resposta.
Foi assim que me perdi em mim.
E desde aí, ao chegar a noite, tenho medo.
Tenho medo de acordar novamente vazia. Tenho medo de te deixar novamente com interrogações no olhar.
E é por isso que peço as tuas palavras – escritas, faladas, sentidas. Porque elas fazem desaparecer esse escuro que por vezes se apodera de mim.
Porque elas, e apenas elas, sabem a resposta quanto ao paradeiro do meu sorriso.
Não sei como, mas ele vem sempre com elas. Talvez vivam no mesmo local, penso eu.
E assim vivo, ansiando por as tuas palavras – escritas, faladas, sentidas – ansiando pelo meu sorriso, pelos meus sentimentos.